‘e quando me debrucei da janela altíssima, sobre a rua para onde olhei sem vê-la, senti-me de repente um daqueles trapos úmidos de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito que mancham lentamente’
pessoa
deitada nesse peito, eu penso em como é bom sentir esse coração batendo. ainda vou ficar aqui por alguns minutos, talvez horas, velando esse seu sono infinito, querendo levantar, mas desejando compartilhar a preguiça de quando acordamos juntos e ficamos nos espreguiçando eternamente. sempre achei que os domingos de preguiça são melhores para quem está apaixonado.
há por aqui um homem que usa senão o cheiro que a pele lhe empresta. que puxa a coberta no meio da noite mesmo em clima escaldante e pela manhã só se vê o tecido em meio à sua pele morena, tesa e suada. sei que você gosta de mim porque, durante a noite [acho que sem perceber], me cobre os ombros de beijos antes de me cobrir com esses cobertores.
outro dia falávamos sobre estereótipos de beleza. discordamos em tudo. você se sente feio diante do meu desdém com belezas simplesmente estéticas ou físicas. agora me vem à cabeça caetano cantando ~você tem boniteza, e a natureza foi quem agiu~ e tenho vontade de te acordar aos beijos, cantando essas palavras, espaçadas, devagar, dizendo o quanto você é lindo, lindo.
quase meio-dia, o barulho da sua respiração já não é mais de quem dorme profundamente e eu aproveito para entrelaçar minhas pernas na sua. quem sabe você acorda com vontade daquele café que só mesmo você sabe fazer. eu ainda ficaria na cama esperando enquanto você o prepara, como se o ritual matutino ainda não tivesse acabado. eu, aprendendo o seu ritmo e fazendo você se render ao meu.
a minha preguiça é também uma urgência de quem só tem um dia para acordar ao seu lado e tê-lo inteiramente, mas logo o meu sonho mais bonito começa: levantamos.
aleatório 6
busca no google: ‘instruções para preencher vazio’ [ah, os domingos sem você…]
aleatório 5
uma coisa é certa: o problema é não sabermos qual.
aleatório 4
engolindo o coração para digerir a parada cardíaca
pois não era mais humanojosé gomes ferreira, viver sempre também cansa
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

